17 de fevereiro de 2018

Observar é a chave - Osho


"Não julgue, porque no momento em que começar a julgar você esquecerá de observar. E isso acontece porque no momento em que começa a julgar — “Esse pensamento é bom” — justamente nesse espaço de tempo você não estará observando. Você começou a pensar, envolveu-se. Não conseguiu permanecer alheio, parado à margem da estrada, só observando o tráfego.

Não se torne um participante avaliando, julgando, condenando; nenhuma atitude deve ser tomada a respeito do que está se passando na sua mente. Você precisa observar os seus pensamentos como se fossem nuvens passando no céu. Você não faz julgamentos sobre as nuvens — essa nuvem negra é ruim e essa nuvem branca parece um sábio. Nuvens são nuvens, elas não são nem boas nem ruins.

O mesmo acontece com os pensamentos — são meras ondinhas passando na sua mente. Observe-os sem julgá-los e você terá uma grande surpresa. Quando a sua observação se tornar constante, os pensamentos passarão a ficar cada vez mais esparsos. A proporção é exatamente a mesma; se você estiver com 50% da atenção na observação, então 50% dos seus pensamentos vão deixar de existir. Se estiver com 60% da atenção, então só restarão 40% dos pensamentos. Quando você for 99% pura testemunha, só de vez em quando surgirá um pensamento solitário — 1 % passando na estrada, não haverá mais tráfego nenhum. Esse tráfego da hora do rush não existirá mais.

Quando você deixar de lado 100% dos julgamentos, passará a ser apenas uma testemunha; isso significa que você se tornou simplesmente um espelho — porque o espelho nunca faz nenhum julgamento. Uma mulher feia mira-se no espelho e ele não faz nenhum julgamento. Uma mulher bonita mira-se no espelho e não faz nenhuma diferença. Quando não há ninguém diante dele, o espelho tem a mesma pureza de quando há alguém sendo refletido em sua superfície. Nem o reflexo o afeta nem o não-reflexo.

O testemunhar se torna um espelho. Essa é a maior conquista da meditação. Se consegui-la, você já estará na metade do caminho, pois trata-se da parte mais difícil. Agora você sabe o segredo, e o mesmo segredo tem simplesmente de ser aplicado em outros objetos.

Dos pensamentos você precisa passar para experiências mais sutis ligadas às emoções, aos sentimentos, aos estados de espírito. Da mente para o coração, nas mesmas condições: nenhum julgamento, só testemunho. E, surpresa, a maioria das suas emoções, sentimentos e estados de espírito começarão a se dissipar. Agora, quando está sentindo tristeza, você está realmente triste, está tomado de tristeza. Quando está com raiva, ela não é parcial. Você fica cheio de raiva; cada fibra do seu ser vibra de raiva.

Observando o coração, a impressão que se tem é que agora nada mais pode possuir você. A tristeza vem e vai embora, você não fica triste; a felicidade vem e vai embora, você também não fica feliz. Seja o que for que se passe nas camadas mais profundas do coração, isso não afeta você. Pela primeira vez você tem uma amostra do que seja maestria. Não é mais um escravo à mercê da vontade alheia; nenhuma emoção, nenhum sentimento, ninguém pode mais perturbá-lo com ninharias."

Osho em Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa

10 de fevereiro de 2018

Luta e inconsciência - Osho


"Lutar é uma atitude básica, porque isso alimenta o ego. 
Quanto mais você luta, mais o seu ego se torna mais forte. Se você sair vitorioso, o ego tem grande alegria. 

Você fica dando vida ao ego pelas suas vitórias. Mas, por outro lado, à medida que o ego se torna mais forte, o seu ser vai se afastando cada vez para mais longe de você.

À medida que seu ego se torna mais forte, você vai perdendo a si mesmo. Você pode estar lutando e saindo vitorioso, não sabendo absolutamente que não se trata de um ganho, mas de uma perda. Ensina-se a todas as crianças a lutarem, de diferentes maneiras. A competição é uma luta, ser o primeiro da classe é uma luta, ganhar um troféu num jogo é uma luta... Essas coisas são preparações para a sua vida. Depois luta-se numa eleição, luta-se por dinheiro luta-se por prestígio. Toda essa sociedade está baseada em lutas, competição, briga, na colocação de cada indivíduo contra o todo.

Assim, esta é quase a situação de todo mundo. E aí, você me escuta falar de entrega...

Entrega’ significa ‘nenhuma competição, nenhuma briga, nenhuma luta’... simplesmente relaxar com a existência, aonde quer que ela conduza. Sem tentar controlar o seu futuro, sem tentar controlar as conseqüências, mas permitindo-as acontecerem... sem nem pensar nelas. 


A entrega está no presente; as conseqüências estão no amanhã. E a entrega é uma experiência tão deleitosa... um total relaxamento, uma profunda sincronicidade com a existência. (...)

A luta precisa de uma mente muito inconsciente. Se você for um pouco consciente, você não pode brigar, porque a coisa toda parece ser absurda, destrutiva, não ajuda ninguém de maneira nenhuma. E por ela você não está só destruindo o outro, você também está se destruindo e você prossegue destruindo todas as possibilidades de um relacionamento feliz, harmonioso.
É muito fácil ficar com raiva e brigar, mas é muito difícil eliminar esse veneno do sistema, porque isso cria veneno. 


Esse veneno persiste. 

Cada briga tem um remanescente e o remanescente irá novamente gerar a mesma situação na qual você começa a brigar novamente. Desse modo, luta gera luta; um conflito gera outro conflito. Eles são muito reprodutivos. Eles não acreditam em nenhum controle da natalidade.

Consciência, atenção, não tem filhos. Ela é bastante em si mesma. Mas a inconsciência gera muitos filhos. Assim basta lembrar mais e mais... apenas apanhe a si mesmo em flagrante. E então não se sinta embaraçado, não se sinta envergonhado. Imediatamente abandone isso aí mesmo. Mesmo que você esteja no meio de uma sentença, pare aí mesmo e dê uma boa risada.


A risada é muito medicinal. Não existe nada como a risada... ela é muito terapêutica. Se as pessoas puderem rir mais, o mundo certamente será melhor. 

E se as pessoas puderem rir nas situações onde a risada não acontece facilmente, o mundo pode ser tremendamente diferente...realmente um mundo muito feliz."
Osho em Be realistic: Plan for a miracle

9 de fevereiro de 2018

Sobre a não-dualidade - Jeff Foster


"Conheci realmente, nos últimos anos, muita gente para quem a não-dualidade se converteu em uma nova religião.

Eles creem que não tem um eu, que não há escolha e que tudo isso é apenas uma história, e repetem estas frases memorizadas interminavelmente.

Inclusive lutam com outras pessoas que não veem as coisas da mesma maneira!

Não podem ver que estão presos em um novo dogma, que não é a libertação de seu sofrimento, mas que simplesmente o justifica e inclusive o alimenta.

'Estou sofrendo, mas não há ninguém aqui sofrendo, e não a nada que possa fazer de qualquer forma, e não há escolha possível. E todos vocês são dualistas! E se você pensa que estou irritado, isso é apenas sua projeção. Aqui não há ninguém que se irrite.’

Trata-se de uma receita para a devastação e para cegueira profunda da verdade. E um conflito interminável.

O que em realidade estamos falando aqui - e o que venho assinalando - é do verdadeiro fim do sofrimento e do conflito, não como uma posição de duração determinada, mas como uma valente e radical abertura à vida.

Não como um refugio (como fala meu amigo Scott Kiloby) em um novo ponto de repouso mental não-dual, mas em um novo descobrimento do mistério.

Isto tem a ver com descobrir nossa total inseparabilidade da vida, com conhecermos a nós mesmos como a imensidão na qual cada pensamento, sensação, sentimento e som é um amigo bem-vindo.

Não estamos falando sobre a crença de que não há eu nem escolha, não estamos falando de novas conclusões, mas de chegar a reconhecer esta liberdade e repouso a cada momento, sem importar o que esteja acontecendo em nossas vidas.

Isto não é uma religião, mas um reconhecimento em tempo real. 

Um novo e curioso olhar para nossa experiência, sem conclusões, sem história, sem memória, inclusive sem a memória da não-dualidade."

3 de fevereiro de 2018

O sorriso de Krishna - Pedro Kupfer


"Já faz muitos anos que ouvi por primeira vez o mantra "entrego, confio, aceito e agradeço", dos lábios do incrível e saudoso professor Hermógenes. Lembro que, ao ouvir por primeira vez essas quatro palavras juntas, tive a mesma sensação de maravilhamento que senti noutras oportunidades, ao ouvir ensinamentos transformadores da boca dos mestres realizados que tive a oportunidade de conhecer.

Uma das grandes virtudes desses mestres é que eles podem transmitir a visão transformadora do Yoga através de palavras simples que não apenas ficam na memória mas tocam profundamente o coração. Hermógenes é esse tipo de mentor, difícil de se encontrar.

Lá se vão quase duas décadas desde o momento em que escutei por primeira vez estas palavras numa palestra que ele deu num espaço de Yoga em Florianópolis. E muitas outras vezes as ouvi é li noutros lugares. E sempre elas tiveram (e continuam tendo) o mesmo peso, a mesma carga, a mesma promessa de que as coisas podiam ser mais do que pareciam, de que a vida não devia ser só aquela cilada da qual era preciso ser um ninja para poder sair.

Penso que as quatro palavras do aforismo tenham o mesmo peso. E mais peso ainda têm a união delas nessa ordem específica, pelo que revelam. Bom, o convite que recebi foi para refletir sobre a terceira das quatro palavras: aceitação.

Aceitação, no contexto do Yoga, é um valor muito bonito e transformador. Aqui, a palavra significa algo diferente daquilo para o que ela aponta por exemplo quando aceitamos aqueles termos de uso do computador que jamais lemos. Aceitar não é, por outro lado, cultivar a resignação sôfrega de quem não consegue manter a equanimidade ou tende a se colocar como vítima das circunstâncias.

Sem ser o professor Hermógenes, e distando muito da sua sabedoria, atrevo-me a dizer que quando escolheu a palavra aceitação quis apontar para a virtude de manter o contentamento e o astral altos; não apenas quando as coisas estão fluindo da maneira que desejamos ou esperamos, mas igualmente quando a vida nos coloca aqueles inevitáveis desafios.

Aceitar situações das quais gostamos, ou aquelas que nos surpreendem agradavelmente é muito fácil. Aceitar coisas que nos são indiferentes tampouco implica algum desafio especial. Agora, penso que a palavra aceitação esteja nesta frase justamente para nos lembrar de como lidar de maneira equânime com os obstáculos que vão nos ensinar alguma coisa.

Digo isto pois é fato que se as coisas só fluírem para nós na forma do conforto e da facilidade, não aprenderemos nunca nada. Aprendemos através dos desafios, das limitações e das dificuldades. Como diz um ditado das gentes do mar, que ouvi do meu irmão, cuja casa é um veleiro: "mares calmos não fazem bons marinheiros".

Porém, esse aprendizado não precisa ser sôfrego. É possível enfrentar desafios, com um sorriso nos lábios e paz no coração. É possível relaxar e apreciar do mar tormentoso como ele é. Foi isso o que o deus Kṛṣṇa ensinou o príncipe Arjuna à beira do campo de batalha: sem perder o sorriso nem a calma, apesar da trágica guerra fratricida que estavam vivendo.

O sorriso de aceitação surge da apreciação da ordem maior, de que nela, há um lugar para cada pessoa, para cada coisa e circunstância. A aceitação equânime implica, a priori, compreender a diferença entre o que podemos e o que não podemos mudar. E, alegremente, nos ajeitar dentro dessas situações, aceitando as pessoas e as coisas como são, vivendo conscientes e aplicando essa visão libertadora a cada momento.
Com o sorriso de Kṛṣṇa."

27 de janeiro de 2018

O que é uma emoção negativa? - Eckhart Tolle


"Uma emoção que é tóxica ao corpo e que interfere com o seu equilíbrio e o funcionamento harmonioso. Medo, ansiedade, raiva, rancor, tristeza, ódio ou intensa antipatia, ciúme, inveja – são emoções que interrompem o fluxo de energia através do corpo, afetam o coração, o sistema imunológico, a digestão, a produção dos hormônios e assim por diante.

Até mesmo a medicina tradicional, embora ela saiba ainda muito pouco sobre como o ego opera, está começando a reconhecer a ligação entre os estados emocionais negativos e a doença física.

Uma emoção que faz mal ao corpo também infecta as pessoas com quem você entra em contato e, indiretamente, através de um processo de reação em cadeia, inúmeros outros que você nunca encontra. Há um termo genérico para todas as emoções negativas: infelicidade.

Será que as emoções positivas têm, então, o efeito oposto no corpo físico? Será que elas fortalecem o sistema imunológico, revigoram e curam o corpo? Ela o fazem, na verdade, mas precisamos diferenciar entre as emoções positivas que são geradas pelo ego e as emoções mais profundas que emanam do seu estado natural de conexão com o Ser.

As emoções positivas geradas pelo ego já contêm em si mesmas o seu oposto em que elas podem rapidamente se transformar. Aqui estão alguns exemplos: O que o ego chama de amor é a possessividade e o apego, que pode se transformar em ódio em questão de segundos.

A expectativa sobre um evento futuro, que é a supervalorização do ego sobre o futuro, transforma-se facilmente em seu oposto – decepção ou desânimo – quando o evento termina ou não preenche as expectativas do ego. Louvor e reconhecimento o fazem se sentir vivo e feliz um dia; ser criticado ou ignorado o tornam deprimido e infeliz no seguinte. O prazer de uma grande festa se transforma em frieza e ressaca na manhã seguinte.

Emoções geradas pelo ego são derivadas da identificação da mente com fatores externos que são, é claro, instáveis e sujeitos a alterações a qualquer momento. As emoções mais profundas não são realmente emoções, sob qualquer condição, mas estados do Ser. 
As Emoções existem no reino dos opostos. Os Estados do Ser podem ser obscurecidos, mas eles não têm oposto. 

Eles emanam de dentro de você como o amor, a alegria e a paz, que são aspectos de sua verdadeira natureza."

20 de janeiro de 2018

Ondas mentais e ervas daninhas...


"Por desfrutarmos de todos os aspectos da vida como um desdobramento 
da Grande Mente, não procuramos qualquer alegria excessiva. 
A nossa serenidade é então imperturbável.”

Quando estiveres praticando zazen não tente deter o pensamento. Deixa que ele pare por si mesmo. Se alguma coisa te vier à mente, deixa-a entrar e deixa-a sair. Ela não permanecerá durante muito tempo. Quando tentas parar o pensamento, isso significa que te estás a sentir incomodado por ele. Não te deixes incomodar por coisa nenhuma. Pode parecer que essa coisa vem de fora da tua mente, quando, na verdade, se tratam apenas das ondas da tua mente; e se não te deixares incomodar pelas ondas, elas tornar-se-ão gradualmente mais calmas. Em cinco ou, no máximo, dez minutos, a tua mente estará completamente serena e calma. Nessa altura, a tua respiração tornar-se-á mais lenta e as tuas pulsações acelerarão um pouco.

Poderás demorar ainda algum tempo a conseguir atingir um estado mental calmo e sereno na tua prática. Surgem muitas sensações, afluem muitos pensamentos ou imagens, mas são apenas ondas da tua própria mente. Nada vem de fora da tua mente. Em geral, pensamos que a nossa mente recebe impressões e experiências do exterior, mas isso não é uma compreensão correta da nossa mente. A verdadeira compreensão é que a mente inclui tudo; embora penses que algo surge de fora, isso significa apenas que algo surge na tua mente. Nada exterior a ti próprio te poderá perturbar. És tu próprio que crias as ondas na tua mente. Se deixares a mente como ela é, ela acabará por ficar calma. Esta mente é conhecida por mente grande.

Quando a tua mente está vinculada a algo exterior a si própria, trata-se da tua mente pequena, que é limitada. Se a tua mente não estiver vinculada a nada, deixará de haver percepção dualista na atividade da tua mente. Percepcionas a atividade apenas como ondas da tua mente. 

A mente grande experimenta tudo dentro de si própria. Consegues perceber a diferença entre as duas mentes: a mente que inclui tudo e a mente ligada a alguma coisa particular? Na verdade elas são a mesma coisa; a percepção é que é diferente, e a tua atitude perante a vida será diferente consoante a percepção que tiveres.

Faz parte da essência da mente que tudo nela se encontre incluído. Experienciar isso é ter um sentimento religioso. Ainda que as ondas surjam, a essência da tua mente é pura; é como a água límpida com poucas ondas. Na verdade, a água tem sempre ondas. As ondas são a prática da água. Falar de ondas separadas da água ou de água separada das ondas é uma ilusão. A água e as ondas são uma só coisa. A mente pequena e a mente grande são uma só. Quando compreenderes a tua mente desta maneira, terás alguma segurança nos teus sentimentos. 

Como a tua mente não espera nada vindo do exterior, ela está sempre completa. Uma mente com ondas não é uma mente perturbada, mas antes uma mente ampliada. Tudo o que experimentas é uma expressão da mente grande.

A atividade da mente grande é a ampliação de si mesma através de diversas experiências. De certo modo, as nossas experiências, que surgem uma após outra, são sempre novas e frescas, embora, num outro sentido, não passem de um contínuo e repetitivo desdobramento da mente grande. Por exemplo, se comeres um alimento saboroso ao pequeno-almoço, comentas: “isto é bom.” O “bom” deriva de alguma coisa experimentada há muito tempo, embora não te recordes quando. 


Com a mente grande, aceitamos cada uma das nossas experiências do mesmo modo que reconhecemos como nossa a cara que vemos no espelho. Não temos medo de perder a mente. Não há qualquer lugar para onde ir ou de onde voltar; não existe medo da morte, do sofrimento derivado da velhice ou da doença. Por desfrutarmos de todos os aspectos da vida como um desdobramento da mente grande, não procuramos qualquer alegria excessiva. 

A nossa serenidade é então imperturbável, e é com essa serenidade imperturbável da mente grande que praticamos zazen.

Devias antes sentir-te grato pelas ervas daninhas da tua mente,
pois elas acabarão por enriquecer a tua prática

No zazen puro não devem existir quaisquer ondas na tua mente. Enquanto estás sentado, essas ondas vão-se tornando cada vez mais pequenas e o teu esforço irá transformar-se num sentimento subtil.

Costumamos dizer: "Ao arrancarmos as ervas daninhas alimentamos a planta.” Arrancamos as ervas daninhas e enterramo-las perto da planta para a alimentar. Então, mesmo que tenhas alguma dificuldade na tua prática, mesmo que surjam algumas ondas enquanto estás sentado, essas mesmas ondas irão ajudar-te. Por isso, não devias sentir-te incomodado com a tua mente. Devias antes sentir-te grato pelas ervas daninhas, pois elas acabarão por enriquecer a tua prática. 

Se tiveres alguma experiência do modo como as ervas daninhas da tua mente se transformam em alimento mental, a tua prática registará um progresso notável. 
Sentirás o progresso. 
Sentirás como elas se transformam em alimento para ti próprio. Evidentemente, não é assim tão difícil encontrar alguma interpretação filosófica ou psicológica para a nossa prática, mas isso não chega. Precisamos de experimentar verdadeiramente como as nossas ervas daninhas se transformam em alimento."

Por Shunryu Suzuki em Mente Zen, mente de principiante.

13 de janeiro de 2018

Absoluto e relativo - Pedro Kupfer


"Quando olhamos para a Criação, o que vemos? Formas e mais formas por todos os lados. Coisas e mais coisas, que usando substantivos e qualificamos através de adjetivos. O mundo é palavra e significado. Namarūpaḥ. 

O Universo é uma miríade de nomes e formas. Inteligência manifestada. O Absoluto é a origem, o fundamento; o Relativo é a manifestação, os miríades de nomes e formas.

Na “Canção do Conhecimento do Ilimitado”, Brahmajñānavālī, um linda composição em dezenove estrofes de Śrī Śaṅkarācārya, o incrível professor do século VIII, deu uma definição belíssima dessa peculiar relação entre o Ser e a manifestação:

ब्रह्म सत्यं जगन्मिथ्या जीवो ब्रह्मैव नापरः ।
अनेन वेद्यं सच्छास्त्रमिति वेदान्तडिण्डिमः ॥ २०॥

brahma satyaṁ jaganmithyā jīvo brahmaiva nāparaḥ |
anena vedyaṁ sacchāstramiti vedāntaḍiṇḍimaḥ || 18 ||

"O Ser é Verdade, Satya. O Universo é Relativo, mithyā. 
A crença da separação (jīvaḥ) não é mais que o Ser. 
Aquele através do qual esta Verdade é conhecida é 
o śāstra mais elevado. Assim ruge o Vedānta". || 18 ||


O Absoluto não tem atributos. As palavras que se usam para apontar para o Ilimitado não são o Ilimitado, nem são atributos dele. São apontadores que indicam o Absoluto.

Você pode compreender o Ilimitado através da compreensão do Universo como um atributo circunstancial dele. O Ilimitado é manifestado na forma do Universo, transitoriamente. Existia antes, existe agora, existirá depois.

Antes, sem forma. Agora, nas formas visíveis. As que conhecemos e as que desconhecemos. Depois, sem forma novamente.

O mundo é muito vasto, variado e múltiplo. Toda forma é forma do Ser. O tempo é Brahman. O espaço é Brahman. Jagat, o Universo, como diz o verso de Śaṅkara, não precisa ser medido.

Para nós, basta considerar esse Universo como o que conhecemos dele, desde a nossa experiência humana. Universo, para nós, é aquilo que experienciamos. E viver o que temos para viver, plenos e felizes.

Jagat é o que você é em termos de corpomente, é o que você vê, o que você ouve, o que você cheira, o que você sente e o que você toca. É a suma de todas as suas experiências sensoriais.

Este é o modelo dos cinco sentidos, dos cinco elementos, pañcabhūta: terra, água, fogo, ar e espaço. O espaço traz implícita a presença do tempo. Portanto, tempo e espaço são, perceptualmente, a mesma coisa.

O universo fenomênico inclui, através da presença do espaço, o tempo. E, através da presença do tempo, a do movimento, a da atividade. A pessoa do mundo adora o mundo.

Canta canções para o mundo, para o desfrute. Para o cantor, o mundo é real. Segundo Śaṅkarācārya ensina, Brahman é Satyam; o mundo é mithyā, Brahman é Realidade, o mundo é relativo.

Quando você toca o colar, você toca o ouro. Quando você vê o colar, você vê o ouro. Quando você pesa o colar, você pesa o ouro.

Tente tirar o peso do ouro do colar: quanto vai pesar o colar sem o ouro? A Verdade é simples. E a beleza da Verdade é que ela é o que é.

Quantas coisas há: um colar por um lado e um ouro pelo outro? Você pode escolher um sobre o outro? Só há ouro. O colar é relativo. O ouro é o que é. Ouro é a Realidade. O colar é o atributo circunstancial do ouro.

A pulseira é outro atributo circunstancial do ouro. Nenhuma dessas formas, nenhum desses nomes, colar, pulseira, existe separado do material com o qual os objetos são feitos. Não há colar nem pulseira sem a presença do ouro.

Viva feliz e calmamente, então, pois não há outra possibilidade a não ser a da entrega. É isso."

6 de janeiro de 2018

Estou protegido - Jeff Foster


"Em meu curto espaço de tempo neste planeta, eu conheci o que é uma grande tristeza, eu afundei nas profundezas do imenso desespero, fui lançado no mais fundo da minha própria solidão acreditando que nunca mais voltaria a estar bem.

Eu saboreei os extáticos prazeres da meditação, a feroz intimidade do amor, as selvagens dores da angústia, a emoção do êxito inesperado e a tristeza do fracasso repentino.

Houve momentos em que eu pensei que nunca conseguiria, momentos em que meus sonhos foram destroçados em tal grau, que jamais imaginei que a vida poderia seguir adiante.

No entanto, ela seguiu adiante.

Às vezes, eu encontrei a humildade em meio a devastação, e desde as cinzas dos futuros imaginados, vi nascer novas e evidentes alegrias ... e nenhuma experiência foi em vão.

Eu cheguei a confiar plenamente na vida, e confiei inclusive em momentos nos quais esqueci como confiar, confiei em que a vida nem sempre sai conforme o planejado, porque não há nenhum plano, só vida.

Eu vi inclusive que os momentos de grande incerteza contem uma inteligência suprema, e que às vezes temos que cair para sermos capazes de levantarmo-nos com mais inteireza, com mais bondade.

E, de alguma maneira, eu sempre me senti protegido, de uma forma que eu não posso, nem quero explicar.

Certamente poderei em breve ser esmagado novamente; poderei chegar a experimentar desafios e angústias aparentemente insuperáveis, mas, de alguma maneira, sempre estarei protegido.

De algum modo, sempre estou protegido".

23 de dezembro de 2017

Cristo é a ponte - Osho


No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Todas as coisas foram feitas por meio Dele, e sem Ele nada teria sido feito.
Nele estava a vida; e a vida era a luz dos homens.
E a luz brilhou na escuridão; e a escuridão não a compreendeu.
Evangelho de João.

"Eu falarei do Cristo. Cristo é o próprio princípio da religião. Em Cristo todas as aspirações da humanidade são compreendidas. Ele é uma síntese rara. (...)

Jesus é a culminação de todas as aspirações. Ele está em agonia - como você, como todos os seres humanos nascem - em agonia na cruz. Ele está no êxtase também, ele celebra; é uma canção, uma dança. E também transcendência. 

Há momentos em que você chega muito perto dele, em que você vê que seu ser interior não é nem cruz nem celebração, mas a transcendência.

Esta é a beleza de Cristo: existe uma ponte. Você pode ir em direção a ele pouco a pouco, e ele pode conduzi-lo na direção do desconhecido - e tão lentamente que você nem terá ciência quando cruzar a fronteira, quando entrar no desconhecido vindo do conhecido, quado o mundo desaparecer e Deus aparecer. Você pode confiar nele, por que ele é tão parecido com você e, contudo, tão diferente. Você pode acreditar nele, porque ele faz parte da sua agonia - você pode compreender sua linguagem.

Eis porque Jesus se tornou o grande marco na história da consciência. Não é por coincidência que o aniversário de Jesus tenha se tornado a mais importante data da história. Tinha de ser assim. Antes de Cristo, um mundo; depois de Cristo, passa a existir um mundo totalmente diferentes - uma demarcação na consciência humana. Há tantos calendários, tantos meios, mas o calendário que está baseado em Cristo é o mais significativo. Com ele, alguma coisa mudou no homem; com ele algo penetrou na consciência do homem. 
Buda é belo, soberbo, mas não deste mundo; Krishna é adorável - mas contudo, está faltando a ponte. Cristo é a ponte. (...)

Com Jesus, um caos entrou na consciência humana. Agora a organização não é algo a ser criado do lado de fora, na sociedade; a ordem tem de nascer dentro do âmago mais profundo do seu ser. Cristo trouxe o caos. Agora a partir deste caos, você tem de nascer totalmente novo, uma nova ordem surgindo do âmago do ser - um novo homem, uma nova consciência humana.(...)

Deus é criatividade. A natureza de Deus é criatividade. Ele sempre esteve criando e não há nenhum outro modo: a única forma do mundo existir é como ele existe. É o único modo. (...)

Deus é a única existência, o único ser; a única vida que existe; a única dança que existe; o único movimento, a única energia que existe. No oceano e nas ondas, no mundo ilusório e na verdade, nos sonhos e no sonhador, a única energia que existe é Deus. Tudo é ele, e ele é Tudo.
N'Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A partir do momento em que você compreende isto - que ele é a única vida - sua vida se torna iluminada. Você fica cheio de luz. Deus é Vida! Se você compreende isso, toda a sua vida se torna cheia de luz. A vida dele se torna uma luz na sua compreensão. Quando Sua vida é refletida dentro de você, ela se torna Luz.

E a luz está brilhando ao seu redor. 
A vida está ao seu redor - nos pássaros, nas árvores, no rio. 

A vida está toda à sua volta, não há nada mais - você está vivendo no oceano da vida. 

Fora e dentro, dentro e fora, só há vida borbulhante. 
Uma grande corrente de vida, e você como um peixe dentro dela."

Osho em Palavras de Fogo, reflexões sobre Jesus de Nazaré. 

Cristo nasce em cada um de nós,
e nos mostra a natureza divina, acolhedora, luminosa e pacífica
brilhando em toda a existência...
Luz, Vida, Amor e Paz...
Feliz Natal a todos,
Cristo é vivo em nós
Cristo é vivo entre nós...

Amor
Lilian
💖



16 de dezembro de 2017

Totalidade, abandono e beleza - J.Krishnamurti


"Por certo, para termos aquela beleza interior, deve haver completo “abandono” (de si próprio), o sentimento de completa ausência de prisões, restrições, defesas, resistência; mas, esse “abandono” se torna caótico quando desacompanhado da austeridade. Mas, sabemos o que significa ser austero, satisfazer-se com pouco e não pensar em termos de mais?

O “abandono” deve estar acompanhado de profunda austeridade — da austeridade que é extraordinariamente simples, porque a mente que está adquirindo, ganhando, não está pensando em termos de mais. É a simplicidade nascida do “abandono”, mais a austeridade, que produz o estado de beleza criadora. Mas, se não existe amor, vocês não podem ser simples, não podem ser “austero”. Podem falar a respeito de simplicidade e austeridade, mas, sem amor, elas são meramente uma forma de compulsão e, por conseguinte, não pode haver “abandono”. Só tem amor aquele que “se abandona”, que se esquece completamente de si próprio e, dessa forma, faz nascer o estado de beleza criadora.

A beleza, é bem óbvio, inclui também a beleza da forma; mas, se não há beleza interior, a mera apreciação sensorial da beleza da forma conduz à degradação, à desintegração. Só há beleza interior ao sentirem verdadeiro amor pelas pessoas e por todas as coisas da Terra; e, com esse amor, vem um extraordinário sentimento de consideração, de vigilância, de paciência. Vocês podem ter uma técnica perfeita, como cantor ou poeta, podem saber pintar ou concatenar palavras, mas, sem essa palavra criadora, interior, o talento de vocês será muito pouco significativo.

Infelizmente, quase todos estamos nos tornando meros técnicos. Passamos em exames, adquirimos tal ou tal técnica, a fim de ganharmos o nosso sustento; mas, o adquirir técnica ou desenvolver capacidades, sem dar atenção ao estado interior, é produtivo de fealdade e de caos no mundo. Se despertamos a beleza criadora, interiormente, ela se expressa exteriormente, e há, então, ordem. Mas isso é muito mais difícil do que inquirir uma técnica, porque significa completo “abandono de nós mesmos”, significa sermos sem medo, livres de constrangimento, sem resistência, sem defesa; e só podemos abandonar a nós mesmos dessa maneira, quando há austeridade, quando há o sentimento de grande simplicidade interior. Exteriormente podemos ser simples, usar poucas roupas e nos satisfazer com uma só refeição ao dia; mas, isso não é austeridade. Há austeridade quando a mente é capaz de infinita experiência: quando tem experiência e ao mesmo tempo se conserva muito simples. Mas só pode nascer esse estado quando a mente já não está pensando em termos de mais, em termos de adquirir ou “vir a ser” algo por meio do tempo.

O que estou dizendo poderá ser, para vocês, difícil de compreender, mas é verdadeiramente importante. Vejam, os técnicos não são criadores. E há cada vez mais técnicos no mundo, pessoas que sabem o que fazer e como fazê-lo, mas que não são criadoras. Na América, há máquinas calculadoras capazes de resolver em poucos minutos problemas matemáticos que um homem, trabalhando dez horas por dia, levaria cem anos para resolver. Tão extraordinárias máquinas estão sendo criadas! Mas, as máquinas jamais serão criadoras; no entanto, os entes humanos estão se tornando cada vez mais semelhantes a máquinas. Mesmo quando se rebelam, sua revolta se verifica dentro dos limites da máquina e não é, por conseguinte, revolução.

Muito importa, pois, descobrir o que é ser criador. Você só pode ser criador quando há “abandono”; isso significa, em verdade: quando não há sentimento de compulsão, medo de “não ser”, não ganhar, não alcançar. Há, então, grande austeridade, simplicidade e, ao mesmo temo, amor. Essa totalidade é beleza, estado criador. "

J. Krishnamurti em A cultura e o problema humano
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